¹No silêncio do fim de tarde, no balanço do galope alheio, brota a voz da minha terra, o chão sagrado e sem receio, onde o vento passa dizendo os segredos de Baixa do Meio.
²Quando o vento vem cantando no mato grande esquisito, é o sertão soltando aviso num murmúrio quase bonito; quem conhece essa cantiga sabe ler recado escrito.
³Aqui quem tem paciência vence estrada de barro e luta, porque no peito do povo tem força que nunca é pouca; e o que parece impossível o sertanejo executa.
⁴A fé daqui é mandacaru, cresce firme em chão rachado. Pode vir sol de quarenta, pode vir tempo apertado, que o coração dessa gente não se entrega ao desamparado.
⁵O sol de meio-dia ensina mais que mestre de oração: ensina a ter resistência, ensinando lição por lição; quem aprende nesse fogo carrega luz no coração.
⁶A promessa da chuva é doce, parece abraço de mãe. Quando o céu escurece, o povo suspira: "que ela venha também!" porque no peito sertanejo esperança nunca desvem.
⁷Quem vive em Baixa do Meio aprende o mundo sem medo: seja riso, seja tropeço, seja passo largo ou degredo; aqui o tempo é professor e o caminho, livro sem enredo.
⁸A lua cheia clareando vale mais que qualquer lampião. Mas nenhuma luz do mundo vence a prosa no portão, onde vizinho vira amigo e o amigo é quase irmão.
⁹O que o vento leva embora o tempo devolve um dia. Mas só devolve a quem planta verdade com poesia; no sertão ninguém engana, mas se perdoa com sabedoria.
¹⁰Quando o galo canta diferente, num tom meio atravessado, até a alma pressente que vem mudança do lado; o sertão fala por sinais, e o povo escuta calado.
¹¹O silêncio do nosso chão é voz que fala profundo. Quem tem o coração manso entende o aviso do mundo; pois o sertão, mesmo quieto, grita feito vagalundo.
¹²A saudade aqui anda descalça, pisa macia, mas machuca; ela chega sem pedir e nunca vai embora à nuca; é lembrança que abraça forte e no peito nunca caduca.
¹³Até o poeirão que sobe tem história pra contar. A brisa leva, a memória guarda, ninguém consegue apagar; cada grão daquela poeira é caminho a recordar.
¹⁴A vida é dura, eu bem sei, mas o povo tem casca forte; casca grossa de pau-ferro que não quebra com má sorte; e ainda se ergue sorrindo, por teimosia ou por esporte.
¹⁵Quando o céu se pinta de fogo no entardecer sereníssimo, é Deus puxando o pincel pra dar cor ao dia cinzíssimo, e mostrar que até no duro tem traço de otimismo.
¹⁶Nem toda seca é castigo, às vezes é só lição. É o sertão pedindo calma, mais respeito e atenção; porque a natureza fala, basta abrir o coração.
¹⁷E assim sigo declarando o que o meu peito rodeia: saberes que aprendi no chão que meus passos sempre semeia; pois a força do Nordeste vive no povo de Baixa do Meio.